sábado, 4 de outubro de 2008

Inocência

Ficar face a face com a doença é uma dolorosa aventura íntima; nos apresenta um eu que não conhecíamos e que não queríamos conhecer, que força sua presença e toma, de uma só vez, toda a confiança que tínhamos na vida e em nós mesmos. Penso que é uma ladra, que nos rouba o que de mais precioso temos: a inocência.
Sim, a inocência.
Sorrateiramente somos subtraídos da pureza que só experimentamos antes dela. Após sua passagem a vida pode adquirir contornos mais preciosos, porém algo dela perde a liberdade da ignorância. Aquela sensação infantil de eternidade. Somos atropelados pela finitude da vida. Somos esmagados pela dor da verdade: um dia morreremos.
Sim, um dia morreremos.
Seremos ceifados pela morte. Não escaparemos. Ela virá. Seremos embalados em seus braços carcomidos e levados a mundos outrora conhecidos, ou não.
Sigo nessa aventura dolorosa e libertadora.
Sim libertadora.
Hoje, contraditoriamente, sou mais livre do que ontem, pois hoje sei que não sei quando, mas que vou morrer. Hoje, muito mais do que antes, vivo. Vou despistando a morte, pois essa é a recompensa pelo estrago que ela causou: tornei-me forte e sorrateira. Agora podemos lutar de igual para igual. Hoje sei que ela virá e isso torna ainda mais doce a minha vingança. Brinco de esconder com ela. Despisto-a, faço-a de boba. Coisa que só aprendi a fazer depois que perdi a inocência.
Sei que, inevitavelmente, perderei essa batalha. Todos perderemos. Mas minha bagagem fica mais leve a cada dia.

5 comentários:

Coelho Ricochete disse...

Aonde vamos parar???

Larissa Bohnenberger disse...

É, acho que esta é uma ficha que só cai quanto enfrentamos a dita cuja cara-a-cara, mesmo!
Bjuuus!

fromoutspace disse...

Morrer é fácil, viver é que são elas!
Mari-nânima, como diz a minha amiga uruguaia, Celeste, mãe de Laurinha, 'boy te contar'. Tá, eu sei que tu não vai querer que eu te conte (hihihihi), mas é que fiquei absolutamente 'petrificada', como diz meu outro amigo Paulo Euclides, da Biblioteca Comunitária.
Sempre soube que tu (assim como a Lari) tinha talento pra 'módi acureiá as letrinha'!!! Por isso insisti tanto pra que tu também fosse uma blogueira e 'gorfasse' as coisas da vida na blogosfera. Na verdade, o título do teu blog nada mais é do que a nossa essência como magnânimas e angelicais criaturas delicadas e de gestos graciosos, que passam pela vida com a intensidade dos que vão à luta. Morrer é só a última coisa que vai nos acontecer na vida. Talvez por isso eu tenha ataques de riso em velórios e tire onda com a Dona Morte (porque ela já esteve no meu pé, ou melhor, na minha panturrilha).Enfim, o que eu 'boy te contar' é que o teu texto é absolutamente magnânimo, sem puxação de saco ou babação de ovo.
Posso seguramente afirmar que sempre estive certa quanto ao teu talento! Don't stop, Mari, oh, yes, don't stop!!!

janio disse...

Oi Mari.Por mais incrível que pareça, é preciso morrer o que chamas de inocência (que é a ignorância, na verdade), para nasce o novo (ser), que é a "consciência", cujo veículo de transporte, é a razão. Quando a razão desperta a consciência, morre a ignorância (a inocência). A idéia da perda (da vida), nos atemoriza e, no mais recôndito do nosso ser, onde mora o "instinto" (de sobrevivência), sacudido pelas "sensações" de perda, movido pelas "emoções", temperado pelos "sentimentos educados" surge, gloriosa, onipotente, onipresente (pois está em nós e é divina), a "razão", ou seja, a "consciência" e, quando tomamos consciência, de que a morte não existe e, a vida é eterna, advém a "força" e a "tranqüilidade", que é trazida aos justos e, então, nos tornamos livres. Podemos perder algumas batalhas, porém, ganharemos a "guerra". Na verdade, mais importante do que o destino da viagem, é a caminhada que empreendemos e o que construímos durante esta.
Um lindo texto, uma bela mensagem, uma oportunidade de reflexão (sempre).Que os bons espíritos te iluminem (sempre).

Anônimo disse...

Qdo fiz o caminho de Santiago de Compostela as pessoas comentavam que o último trecho do caminho era o equivalente ao término de nossas vidas("fácil", traquilo, calmo). Também pudera após tantas dificuldades (cãimbras, bolhas e dores)sem falar nas subidas, ôoh morro do perdão, pedras e calor. As tantas roupas e apetrechos descartados pelo caminho (sem utilidade)ou seja, objetos que vc não utiliza e muitos foram praticamente eviscerados de vc e da mochila. Vc percorre 800 e tantos km, tantas paisagens, pessoas maravilhosas que vc conhece de uma infinidade de culturas (línguas, países e etc)e experiências (boas e ruins). Vc fica preparado para o pior da viagem, ou seja, o final, simplemente isto. Concordo com o Nhô Janio o que importa é o caminho. Ter a dignidade de continuar a viver e manter o foco na felicidade. Então, a tarde, ao chegar da tal "morte" jogar um pife americano e ... Quem sabe!