sábado, 25 de outubro de 2008

"Sine Cera"


A palavra sinceridade foi inventada pelo romanos , não sei em que época, quando era moda objetos feitos com uma cera especial que, de tão pura revelava o que continha. Acredito que eram usados como vasos ou porta jóias. Quanto mas pura a cera, mais transparência oferecia.
Os fabricantes, vaidosos de seus feitos, evidenciavam a beleza de seu artefato, exclamando sua beleza. Diziam que era tão lindo que não parecia ter cera. Eram "Sine cera", que queria dizer sem cera e permitiam que se enxergasse o que estivesse dentro deles.
Hoje nossos artefatos são tão grosseiros como nossas próprias máscaras.
Somos todos feitos da mesma cera. Ela é tão clara e límpida como nossos pulmões ao nascer. Ao longo da vida vamos recebendo camadas e mais camadas da mais bruta cera e escondendo para sempre aquilo que de mais precioso temos dentro de nós. Nosso coração. Um dia em nosas vidas experimentamos essa ausência de artifiios. Todos nós, sem exceção, fomos crianças. Esse período em que somos tal como os vasos romanos é rapidamente remediado por aqueles que são responsáveis por nossa educação. É feio dizer prá vovó que ela é velha. É feio dizer não gostamos daquele presente horroroso que ganhamos de aniversário daquela tia fora da casinha, que quer descontar na gente seus recalques de infância. É feio dizer à um amigo, que embora more em nossos corações, está passando dos limites. Nessas camadas de cera que vamos recebendo ao longo da vida, vamos embaçando nossos corações como vidros em dias de chuva, não permitimos que vejam através de nós. Engrossamos a camada de cera e, por consequência nossos corações. Tudo em nome das aparências, da civilidade, da educação. Eu diria que também em nome de um ego tão super inflado, que hoje nos faz reféns de nós mesmos. Preciso de minha máscara de cera, pois do contrário o que juízo farão de mim??
Como um chão muito encerado, que vai perdendo algumas camadas pelo atrito, revelando altos e baixos, vamos mostrando um pouco aqui, um pouco ali, do que realmente somos. É impossível e seria hipócrita afirmar que alguém posa ter um comportamento totalmente "sincero" a todo o momento. Isso está firmemente gravado em nós, mas removedores de cera existem e, nesse caso, não custam nada. Sem precisar partir para a grosseria podemos ir removendo pouco a pouco as camadas que nos cobrem. Uma troca bem justa seria trocar a cera pelo óleo de peroba, já que muitas vezes para ser sincero, precisamos de "cara de pau".
Sendo muito "Sine cera", quero assumir o compromisso comigo mesma de remover o máximo dessas camadas que ainda me encobrem, bem como usar menos cera na educação de meus filhos.
Sinceridade não é grosseria. Falta de educação não é sinceridade.


Um comentário:

Simone disse...

É amiga, usamos mesmo muita cera. Mas não podemos nos esquecer que uma das propriedades da cera é derreter sob o calor forte. Esse calor às vezes é proveniente de uma boa emoção, um encantamento com algo que vemos e nos toca profundamente. A cera derrete e mostramos que somos sensíveis e espiritualizados. No entanto, às vezes a cera pode derreter devido ao calor da raiva mal administrada que guardamos dentro de nós e assim mostramos nossas piores facetas. É claro que se usássemos menos cera no dia-a-dia, não deixaríamos aqueles que estão ao nosso redor tão chocados com atitudes grosseiras e ofensivas que emergem desses momentos de ira... Pouparíamos a muitos surpresas e decepções!