domingo, 9 de novembro de 2008


Tava lendo o blog da minha amiga Ana Paula, (dá uma olhada depois, o endereço tá ali do lado - De Onde vem a Calma), e nos comentários de um texto lindo que ela escreveu sobre o pai alguém proclamava sua infinitude através da paternidade. No mesmo momento fui arremessada para a beira da praia dos Ingleses em Floripa, (nada mau), há mais ou menos uns sete anos atrás. Era o primeiro veraneio de minha primeira filha e lá estávamos nós, pais orgulhosos, com todos os "equipamentos" que bem conhece quem tem rebentos: barraca, protetor solar fator 1.000, brinquedos, líquidos pra garantir a hidratação, fraldas para uma emergência intestinal qualquer, enfim todo o aparato mamãe/bebê a que tínhamos direito. Lembro que era cedinho, pois todos sabem que bebês não podem ficar expostos ao sol forte (aliás, ninguém em sã consciência faz isso hoje em dia, mas isso já é assunto para outra postagem). Nisso ia passando aquela tradicional figura praiana: o picoleteiro. Uma pessoa que pela idade não deveria estar ali se não fosse a passeio,mas como nem tudo na vida ocorre da maneira correta ele empurrava seu carrinho como quem empurra a própria vida lomba acima. Acertos de sabores e valores resolvidos ele olha prá minha filha e solta um elogio (tudo bem, confesso que ela era um bebê lindo mesmo) e diz com uma naturalidade tão imensa quanto o oceano ali na frente o que não tinha ouvido de nenhum filósofo ou outro letrado: -"Os filhos da gente são a preservação da espécie; não da espécie humana, mas da tua espécie", disse apontando para meu marido. Aquilo nunca me saiu da cabeça. Algo tão profundo e verdadeiro vindo de alguém que pela humildade que ostentava, não me surpreenderia se fosse analfabeto. Bem ali na minha frente minha filha me olhava como quem diz: Viu mamãe, como ele é esperto!! Esperto é pouco. Um espírito iluminado, um anjo que empurrou seu carrinho até ali só para me dar essa lição: Nossa sobrevivência depende daqueles que nos amam. Se não existirmos no coração de alguém, não existiremos para o resto do universo. Nossa passagem será em vão. Nada fará sentido. Tudo passa nessa vida, a única coisa imutável é o amor. Ele transcende a nós mesmos indo parar gerações adiante, perpetuando nossa espécie. Tenho para mim que aquele picoleteiro, humilde em sua condição mas de uma nobreza inigualável, perpetuará sua espécie por muitas gerações.

5 comentários:

Carol disse...

É... o amor é o que nos move. Pena que tem MUITA gente no mundo que desconhece o poder incomensurável do amor. Falo do amor incondicional, o mais puro e raro, e o mais importante sentimento humano. Quem dera o nosso planetóide tivesse mais picoleteiros como esse espelhados por ele! E, certamente, mais gente receptiva para entender a mensagem, guardá-la por tanto tempo e compartilhar com os outros!
Belo texto!

Marilisa disse...

É, coisas tão básicas, de uma profundidade tão imensuráveis, que nos deixam literalmente de boca aberta.
Obrigada Anjo, por estar há tanto tempo ao meu lado e me aceitar como sou. Com meus erros e acertos. Obrigada por não ter um ego tão grande, que possa sufocar uma amizade por banalidades. Aceitar meus limites e impor os teus. Tenho certeza que perpetuarei minha espécie por muitas gerações através de ti.

Larissa Bohnenberger disse...

As pessoas mais humildes, muitas vezes, são as mais atentas ao que realmente é importante na vida. Ouvir uma frase destas da boca do picoleteiro surpreende, não por sua condição, mas porque nós, nunca havíamos pensado nisto!

Marilisa disse...

è Lari, Lari...é exatamente ess o X da questão...

Ana Paula Sampaio disse...

Mari, que lindo!!! Bem, não tive filhos... então penso em como vou perpetuar a "minha" espécie... rsrsrs Provavelmente através dos meus textos, enquanto as pessoas se lembrarem deles! beijos!!!